sábado, 21 de dezembro de 2013

Presente


Antigamente eu comi algo ao pequeno almoço, vesti aquela roupa, cumprimentei aquelas pessoas e a últimas coisas que fiz e disse foram aquelas. É com discursos redundantes como estes que falamos do dia de ontem como de um baú repleto de teias de aranha. Porquê que tais truísmos nos escapam? Será por o presente ser tão curto? Será, talvez, porque a cada minuto que passa o presente se torna longínquo e passa a chamar-se passado? Aqui e agora é o presente. O presente que tão cruelmente se esconde atrás de uma fração de segundo. O segundo que, ao escapar-se de um ponteiro, insiste em esvair-se no tempo, em afirmar a impossibilidade de ser clonado, como uma possível imitação de um quadro banalizado, uma cópia de uma carta enrugada ou um fósforo reacendido. Não, rodar a mola daquele despertador antigo do sótão não faz mover as nuvens, nem a curvatura do caule das plantas, nem as pedras que foram pontapeadas na rua, não apaga sequer o suspiro do último parto nem muito menos o grito de um louco. O tempo não atende a relógios alheios. O presente nada diz sobre nós, é somente uma fotografia nossa que deixa curiosidade nos outros, mas que nos mantém no anonimato. 
Poderemos dizer "agora" quando os mares congelarem, quando as flores forem feitas de vidro, quando os raios de sol ficarem estanques no ar, quando todas as palavras se tornarem rígidas e formarem uma melodia sem ritmo, quando as cortinas da janela se transformarem em pedra, quando o planeta deixar de girar e quando toda a matéria se reduzir à solidez e se afirmar imutável. Quando Deus quiser parar o tempo saberemos o que é o agora, o que é um presente duradouro e que outrora conhecíamos apenas num segundo, porque quando dizemos que estamos no presente e se, efetivamente, terminarmos a frase, já estaremos no futuro. Por quantos presentes e quantos futuros já passei enquanto escrevia este texto? Não sei, mas agora tudo é passado.

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