quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Ricardo Araújo Pereira 4*

"Quando, em 1917, a Mãe de Deus, Todo-Poderoso, Senhor do Universo, decidiu visitar o concelho de Ourém, toda a gente percebeu que o futuro de Portugal estava no turismo. Se a zona centro, menos favorecida do que outras na beleza da paisagem, era capaz de atrair viajantes pertencentes àquele importante segmento do mercado turístico, que sucesso poderia ter, por exemplo, o Algarve? Para o Governo, contudo, o turismo será uma fonte de rendimento interessante, mas não a principal. O futuro de Portugal passa sobretudo pelos impostos, e é neles que o Governo tem aplicado toda a sua criatividade e iniciativa. De todas as vezes que as medidas foram apresentadas, houve sempre alguém - fosse uma pessoa com influência e prestígio na sociedade portuguesa, fosse o Presidente da República - que tomou a palavra para dizer: cuidado, há um limite para os sacrifícios do povo português. E, no entanto, semanas depois, novos aumentos. E as mesmas vozes voltavam a avisar: atenção, os sacrifícios têm um limite. O limite da algibeira dos portugueses é como a linha do horizonte: por mais que nos aproximemos dele, nunca o atingimos. Passos Coelho e Vítor Gaspar descobriram que, tal como a terra, também a algibeira dos portugueses é redonda - e serão ambos apontados como pioneiros quando se fizer a história da astronomia dos bolsos. Atrás de sacrifícios, sacrifícios vêm. E só os sacrifícios que fizemos no passado nos oferecem agora a possibilidade de estar na posição privilegiada de poder fazer novos sacrifícios. Mas são as leis do mercado: quando um bem escasseia, o seu valor aumenta. Como há poucos empregos, os que existem são caros. E estaremos perto do momento de viragem, em que o Governo deixará de pedir aos portugueses e passará a oferecer-lhes. É por volta da altura em que se atinge este volume de impostos que se costuma oferecer ao trabalhador dois presentes: umas grilhetas e um chicote."

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