segunda-feira, 12 de março de 2012

Crime que ocultamos

Nós: mãos nos bolsos, triviais, dotados de omnisciência, senhores de verdades absolutas, sem remições, passos largos como quem produz apoteoses a nós próprios quando julgamos que a rua é uma passerel e o asfalto a passadeira vermelha. Passamos a vida a ser parceiros de uma superfície espelhada que nos mostra somente pele, cabelo esvoançante, lábios carnudos, faces rosadas, olhos pintados e roupas bonitas. E não a comida por digerir, as lombrigas do egoísmo, os vírus da presunção, as bactérias da vaidade, o mau caráter. Eles: escravos da doença, cabisbaixos, vis pela face seca, usados e deitados fora, olhar desgastado, inexistência de beleza, falta de consciência, eco de inovações, sombra ignorada, carência de elegância e sentido de moda.
Pomos de lado as rugas que os revestem, enquanto o nosso corpo é revestido de chagas, ignoramos o seu conhecimento a posteriori, quando a nossa inteligência nem o botox supera, afirmamos a sua invalidez e o facto de não produzirem, quando nós somos a metrópole da produção do egoísmo, achamo-los monótonos, mas fazemos uma vénia à mais monótona paisagem de betão em que vivemos, tratamo-los como a mobília do canto da garagem, mas a nossa futilidade é mais cinzenta que o fumo do carro que lá estaciona todos os dias… Tão sátiros que julgamos que uma bengala é motivo de desgraça, que uma camisola fora de moda é vergonha, uma caixa de medicamentos é castigo, cansaço é desassossego, idoso na família é doença… A desagregação do mundo dá-se com a queda deste primeiro bloco!

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