sexta-feira, 27 de março de 2015

( IN ) COERÊNCIA


O sol já ia alto e o calor era intenso. As flores estavam murchas, a terra estava seca, as pequenas praças estavam solitárias, os candeeiros pareciam fundidos, os trilhos pareciam pisados por anos de trabalho, por séculos de sofrimento. Como se aquele pedaço de terra fossem restos de um apocalipse. Como se toda a liberdade que eu tivera acolhido ali, tivesse dado lugar a jaulas de gritos de dor, a pegadas apagadas por lágrimas. Tudo parecia ofegante em mostrar-me a cruel passagem do tempo. Haviam precipícios por onde passava e onde tropeçava nas minhas próprias mágoas. Tudo há minha volta aparentava destruição, o mundo estava cansado de me dar sinais, todos os recantos pareciam albergar um segredo, que apesar de destrutivo era ele que mantinha vivas as rotinas das pessoas. Era esse segredo que me fazia estar naquele lugar, àquela hora. A última vez. A solidez dos muros, a cor das casas, a palidez do céu ao amanhecer, o envelhecer das folhas, o cimento da estrada, tudo permanecia constante, a olhar-me. Existiam, somente, pequenos rebentos amarelos aqui e acolá, plantados por Deus e trazidos ao mundo como vagas esperanças. Os próprios corações eram os mesmos e o que eles albergavam também. Mas a coerência deixara de estar em sintonia com os caminhos da felicidade. Sim, a coerência. Como se pianos tocassem e flores brotassem e já nada fizera sentido, como aquela folha que foi amarrotada e nunca mais voltara ao mesmo, por mais que a queiramos banhar a ouro. Era o espírito natural que unificava aqueles caminhos, que dava sentido a palavras que só a bíblia consegue explicar. Existiam, agora, pedras largadas pelo caminho que jamais serão recuperadas. É a terra que pisamos e que julgamos nossa, que um dia será a mesma que desaba e nos abafa até ao precipício. Não basta ser-se de carne e osso para viver. É preciso existir coerência, uniformidade no respeito e a falta de necessidade em cometer erros. E é quando a incoerência surge nos outros que questionamos a nossa própria coerência. Foi embrulhada nestes dilemas que vi a solidão como um caminho de paz. Até que me sentei num rochedo rugoso, tão desequilibrado como os meus pensamentos, tão pouco linear como a minha vida. Deparei-me com terrenos irregulares, uns quantos metros quadrados abatidos de erva por aparar, com um declive tão acentuado quanto o meu desânimo, com tantos sinais de secura quanto os meus olhos. Foi então que ouvi uma melodia uniforme que respirava mistério, era a dissipação de algo tão transparente mas que tocado num instrumento parecia palpável, eterno, e extremamente incoerente… Era a música do meu funeral. Nunca ouviram a vossa? Eu já, e é por isso que me considero viva. E sabem porquê? Porque foi a área abatida daquele terreno que me deu ímpeto para voar, as áreas geladas e rasgadas do meu coração que me permitiram afogar qualquer incoerência e definir um novo rumo.  

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