quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Kilómetros de amor à porta da faculdade

Vejo os dias a passar com uma ridícula lentidão
Dizer que sinto ansiedade é uma mera abreviação
Estou mergulhada em incertezas e enterrada em opções
Sinto-me moldada pela pressão e desesperada por afirmações
Corrói-me a velocidade dos dias, suga-me a prisão de cada segundo
Estou sufocada num poço onde nem sequer vejo o seu fundo
Penso nas malas que vou encher, nas viagens que vou fazer
Na terapia de choques a que me vou submeter
Sei que está na hora de ponderar, abdicar e decidir
Mas sou uma simples criança que já a sua vida está a esculpir
Dentro de mim vivem fantasmas que me atiram à obscuridade
Mas apesar desta tempestade, só peço um resquício de claridade
A própria incerteza preside na minha futura morada
Se o mistério fosse tóxico, já tinha morrido envenenada
Não sou nenhuma flor de estufa que carrega um fardo de expectativas
Porque enquanto elas seguem o sol eu não sigo crenças normativas
Peçam somente à flor que responda às fanáticas leis da vida
Porque ela vive no luxo e eu na frustração do dia-a-dia
As vozes que se pronunciam já soam à mesma badalada
Se a insegurança fosse tortura, já tinha levado uma facada
Para a Universidade me arrasto como um ato de castidade
Deixo-me levar ao sabor da minha crise de identidade
Defino o céu e o amor como subtis e fiéis companhias
Mas desola-me saber que essas serão as únicas alegrias
No fundo sou mais um autómato movido por um mecanismo oculto
Mas estar longe de quem se ama é um fortíssimo tumulto
Lá vou recolhendo a pequenez transcendente da vida
Onde o silêncio formalista me ameniza a despedida
À entrada da faculdade esperam-me seis vultos
O que eles têm de assustador é o facto de serem ocultos
Espera-me o sumptuoso vulto da ciência
Que vai continuar a estremecer o meu chão com tamanha violência
Que me vai tornar mais culta e dotada de conhecimento
Mas queimar as pestanas vai ser o frequente acontecimento
Espera-me o confiante vulto do medo
Que vai ficar na história por todos tratar com desprezo
Que me vai surgir no desconhecido ou no próprio escuro
E me vai manipular às portas do meu futuro     
Espera-me o sociável vulto do carisma
Que me vai obrigar a ver as coisas de outro prisma
Que me vai massacrar com a euforia da amizade
Mas só os amigos de verdade é que me dão visibilidade
Espera-me o adulto vulto da independência
Que mais tarde ou mais cedo vai ser da minha convivência
Que me vai fazer gerir contas de casa e lidas diárias
E me vai fazer prestar atenção às receitas culinárias
Espera-me o desvairado vulto festivaleiro
Que me vai assombrar como um arruaceiro
Que se vai vestir de palhaço para que eu prove a vida noturna
Mas eu cá prefiro a minha iluminada vida diurna
Espera-me o vulto egoísta da saudade
Que nunca julgará que o medo de perder quem se ama é crueldade
Que me vai escorraçar e deitar nos escombros da vida
E no fundo esta vai ser a minha maior ferida
Ferida que vai estar brutalmente aberta, desperta
Em contacto com bactérias e de tristeza coberta
Coberta por um substrato de raiva incandescente
Onde o soluto do meu sangue é um amor fervente
Assim levo comigo a certeza da incerteza e a consciência da inconsciência
Mas o medo que os kilómetros de estrada acarretam vai estar em eminência
Assim projeto nestes versos a nova etapa da minha vida
Posso estar derrotada por agora, mas irei sentir-me acolhida!

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