segunda-feira, 20 de maio de 2013

Infância que já lá vai

Divago por entre humildes pensamentos onde o cerne é o coração
Mas pela geometria desta janela reduzo-me às leis da razão
Ali vai um grupo de crianças que na fealdade são veteranos
É uma ilha de júbilo por entre preconceitos humanos
Vivem um sonho oculto e têm a alma estimada
Se a saudade fosse cultura, eu era sobredotada
Ainda ontem me diziam que o meu nome era menina
Mas o de agora não passa de adolescente sadia
Vivo presa às recordações que giram em torno da infância
Mas no fundo estou consciente de que o presente é a ganância
Com tamanha alegria ia colecionando dentes de leite
E com tamanha angústia agora peço ao mundo que se endireite
Quando me olhava ao espelho punha lacinhos no cabelo
E quando me ponho a constatar apercebo-me que vivo num cubo de gelo
Antes desenhava com ternura um mundo de bonecos deformados
Agora encaro os infortúnios como sentimentos acarinhados
Era de sorriso rasgado que conhecia o peso da amizade
E é de cara desfalecida que conheço o peso da responsabilidade
Tanto me chamavam elétrica, mas era pura vitalidade
E agora chamam-me apática, mas é injeção de comodidade
Era reconditamente feliz por viver um sonho permanente
E agora o passaporte da vida é a fórmula resolvente
Antes de tudo e todos tirávamos bom proveito
Agora possuímos um esqueleto que se move em função do preconceito
Pouco interessavam os cromossomas ou as figuras de estilo
Agora de tanto estudar parece que me auto-mutilo
Vivia de refúgios primitivos preenchidos de sinfonias puras
Agora tenho de escrever para ser a protagonista de aventuras
Os labirintos da previsão não passavam de algo obscuro
Agora alimento-me do receio do meu triste futuro
Antes vivíamos para a família e éramos conhecedores da bíblia
Agora tratamos friamente os outros como mobília
Não sabíamos o valor da vida, mas sabíamos viver
Agora seremos reféns do desrespeito até o nosso corpo envelhecer
Antes amávamos o bater do nosso coração
Agora parece que esperamos pela chegada do caixão
Antes pouco interessava se os meus versos faziam rima
Agora esta última sílaba é coisa de grande estima
Antigamente a bondade assumia-se como um elemento régio
Agora céticos flutuantes são espetados pelo cupido do sortilégio
Antes o amor era encarado como constante enigma
Agora é acrescentado à sociedade como mais um paradigma
No passado andávamos à chuva por mera diversão
No presente andamos como figuras de cera tão mal esculpidas de coração
Opá, não havia mania nem maldade, só inocência
Agora o altruísmo é visto como um resquício de clemência
Porque em criança o nosso nascimento era visto como um dom
Agora passado o paraíso grito: o inferno deve ser tão bom!

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