domingo, 5 de maio de 2013

Crónica: Divórcios


Para a minha avó, um divórcio só é legítimo se houver traição ou porrada. Eu concordava com ela, por mais retrógrada que fosse a teoria, e desdenhava com algum escárnio os divórcios atuais, afirmando que o único divórcio deveria ser o divórcio forçado da morte. E assim me rendia à tradição do único amor eterno. Mas bastou-me ouvir o relato de uma pessoa que me é próxima, que optou por esta “separação moderna”, para mudar de ideias e ser, até, opologista de outras razões que distanciam um casal. Vinte anos de casamento que quase se apagaram por força das circunstâncias. Ainda acreditei numa precipitação da decisão mas, de facto, há uma grande diferença entre ser namorado e ser casado, tal como essa pessoa me explicou. Ser-se namorado é abdicar de uma adolescência para estar com o outro, é viver o mar de rosas que se esperava viver um dia, é prometer e cumprir, é ter motivos para brindar todos os dias, é dar valor ao oásis de amor por entre a jovem liberdade, é ter o condão da felicidade nas duas mãos, enquanto que depois do casamento esse condão só está numa delas, já que a outra está ocupada a segurar no “contrato” de marido e mulher. Assim sendo, ser-se casado é cumprir um papel, um papel que por sua vez está escrito noutro papel. O casamento acaba por se reduzir a um pedaço de tinta! Ser-se casado é, portanto, viver na sombra da segurança que esse papel representa, é deixar de conhecer sacrifícios, já que o peixe à muito que mordeu o isco, é deixar de conquistar e seduzir, é desconhecer o prazer que se tinha por, antes, a ausência ser maior que a presença, é navegar cansado em águas mortas, é deixar de se ter a capacidade de abstração do estatuto que se tem ao enfiar uma aliança no dedo. Quantos casos destes haverão e tanta influência terão na fatia dos divórcios que se conhecem! Mas, apesar disto ser uma realidade para muitos efémeros casais, eu ainda acredito no príncipe e na princesa, no casamento e na morte, na semente que para sempre germinará e na preocupação de se cultivar um amor verdadeiro e eternamente adolescente. O que escrevi, somente serviu para destruir parte do tabu de que é o divórcio. Afinal, a tradição manteve-se em mim. O que mudou foi a minha compreensão face a estes casos. Agora considero outras razões plausíveis para que haja um divórcio. Considero e aceito plenamente, porque talvez eu também agisse da mesma forma.   

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